
40. A Igreja, que é discípula
missionária, tem necessidade de crescer na sua interpretação da Palavra
revelada e na sua compreensão da verdade.
41. E a renovação das formas de expressão torna-se
necessária para transmitir ao homem de hoje a mensagem evangélica no seu
significado imutável».
42. Há coisas que se compreendem e apreciam só a partir desta adesão
que é irmã do amor, para além da clareza com que se possam compreender as
razões e os argumentos. Por isso, é preciso recordar-se de que cada ensinamento
da doutrina deve situar-se na atitude evangelizadora que desperte a adesão do
coração com a proximidade, o amor e o testemunho.
43. No seu constante discernimento, a Igreja pode chegar também a reconhecer
costumes próprios não diretamente ligados ao núcleo do Evangelho, alguns muito
radicados no curso da história, que hoje já não são interpretados da mesma
maneira e cuja mensagem habitualmente não é percebida de modo adequado. Podem
até ser belos, mas agora não prestam o mesmo serviço à transmissão do
Evangelho. Não tenhamos medo de os rever! E, citando Santo Agostinho, observava que os preceitos
adicionados posteriormente pela Igreja se devem exigir com moderação, «para não
tornar pesada a vida aos fiéis» nem transformar a nossa religião numa
escravidão, quando «a misericórdia de Deus quis que fosse livre».
44.Portanto, sem diminuir o valor do ideal evangélico, é preciso acompanhar, com
misericórdia e paciência, as possíveis etapas de crescimento das pessoas, que
se vão construindo dia após dia. Aos sacerdotes, lembro que o confessionário
não deve ser uma câmara de tortura, mas o lugar da misericórdia do Senhor que
nos incentiva a praticar o bem possível. Um pequeno passo, no meio de grandes
limitações humanas, pode ser mais agradável a Deus do que a vida externamente
correcta de quem transcorre os seus dias sem enfrentar sérias dificuldades. A
todos deve chegar a consolação e o estímulo do amor salvífico de Deus, que
opera misteriosamente em cada pessoa, para além dos seus defeitos e das suas
quedas.
45. Nunca se fecha, nunca se refugia nas próprias
seguranças, nunca opta pela rigidez auto-defensiva. Sabe que ele mesmo deve
crescer na compreensão do Evangelho e no discernimento das sendas do Espírito,
e assim não renuncia ao bem possível, ainda que corra o risco de sujar-se com a
lama da estrada.
5.
Uma mãe de coração aberto
46. A Igreja «em saída» é uma Igreja
com as portas abertas. Sair em direcção aos outros para chegar às periferias
humanas não significa correr pelo mundo sem direcção nem sentido. Muitas vezes
é melhor diminuir o ritmo, pôr de parte a ansiedade para olhar nos olhos e
escutar, ou renunciar às urgências para acompanhar quem ficou caído à beira do
caminho. Às vezes, é como o pai do filho pródigo, que continua com as portas
abertas para, quando este voltar, poder entrar sem dificuldade.
47. A Igreja é chamada a ser sempre a casa aberta do Pai. Um dos sinais
concretos desta abertura é ter, por todo o lado, igrejas com as portas abertas.
Assim, se alguém quiser seguir uma moção do Espírito e se aproximar à procura
de Deus, não esbarrará com a frieza duma porta fechada. Mas há outras portas
que também não se devem fechar: todos podem participar de alguma forma na vida
eclesial, todos podem fazer parte da comunidade, e nem sequer as portas dos
sacramentos se deveriam fechar por uma razão qualquer. Isto vale sobretudo
quando se trata daquele sacramento que é a «porta»: o Baptismo. A Eucaristia,
embora constitua a plenitude da vida sacramental, não é um prémio para os
perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos. Estas
convicções têm também consequências pastorais, que somos chamados a considerar
com prudência e audácia. Muitas vezes agimos como controladores da graça e não
como facilitadores. Mas a Igreja não é uma alfândega; é a casa paterna, onde há
lugar para todos com a sua vida fadigosa.
48. Se a Igreja inteira assume este dinamismo missionário, há-de chegar a
todos, sem excepção. Mas, a quem deveria privilegiar? Quando se lê o Evangelho,
encontramos uma orientação muito clara: não tanto aos amigos e vizinhos ricos,
mas sobretudo aos pobres e aos doentes, àqueles que muitas vezes são
desprezados e esquecidos, «àqueles que não têm com que te retribuir»
(Lc 14, 14). Não devem subsistir dúvidas nem explicações que debilitem
esta mensagem claríssima. Hoje e sempre, «os pobres são os destinatários
privilegiados do Evangelho», e a evangelização dirigida gratuitamente a eles é
sinal do Reino que Jesus veio trazer. Há que afirmar sem rodeios que existe um
vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres. Não os deixemos jamais
sozinhos!
49. Saiamos, saiamos para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo! Repito aqui,
para toda a Igreja, aquilo que muitas vezes disse aos sacerdotes e aos leigos
de Buenos Aires: prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter
saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se
agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o
centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos. Se
alguma coisa nos deve santamente inquietar e preocupar a nossa consciência é
que haja tantos irmãos nossos que vivem sem a força, a luz e a consolação da
amizade com Jesus Cristo, sem uma comunidade de fé que os acolha, sem um
horizonte de sentido e de vida. Mais do que o temor de falhar, espero que nos
mova o medo de nos encerrarmos nas estruturas que nos dão uma falsa protecção,
nas normas que nos transformam em juízes implacáveis, nos hábitos em que nos
sentimos tranquilos, enquanto lá fora há uma multidão faminta e Jesus
repete-nos sem cessar: «Dai-lhes vós mesmos de comer» (Mc 6, 37).